Urgir ― parte final

 

Ela me deu a mão e fomos pro andar de cima. Primeiro, dez minutos em uma fila de espera. O velho de cinquenta e tantos anos e camisa vermelha estava aqui, agora, observando tudo ao seu redor, apenas observando tudo ao seu redor e nada fazendo, como de costume. O cara que derrubou cerveja no meu Nike, também. A ruiva que me lembrou dela em um braço e a morena que me lembrou daquela no outro. Paguei o quarto antecipadamente e entramos. Uma cama de solteiro sem lençol. Um azulejo quebrado perto do criado-mudo, onde descansava uma camisinha de posto de saúde e um lubrificante com mais óleo que o necessário. Um sofá no canto, onde eu coloquei minhas roupas e onde ela colocou as roupas dela. Mas não sem antes dobrá-las. Kelly era mais civilizada que eu e, pensando bem, mais civilizada que boa parte do mundo que não se dá a decência de dobrar as próprias roupas íntimas e beijar a boca de seus amores ao menos uma vez por dia. Tantos beijos desperdiçados no mundo. Tanto tempo perdido. E eu vislumbrando a minha vida no dobrar de uma calcinha.

 

Sentei numa ponta da cama e ela encontrou o seu lugar na outra ponta. Fisicamente falando, a distância entre nós era de uma vida. Emocionalmente falando, de um universo. Formiguinhas engolidas pela grandeza da escuridão e uma estrela morrendo, explodindo em poeira cósmica, no canto do infinito. Não tínhamos o que conversar. Eu já conhecia as regras, o programa já estava pago. Todas as formalidades já haviam sido resolvidas e, sem elas, não éramos mais nada. Ela foi a primeira a se deitar, me chamou por cima. Nossos rostos se aproximaram, quase como num beijo. Encostei meu nariz no seu e, pela primeira vez na noite, sorri e arranquei um sorriso de alguém. Mas beijo nenhum há de acontecer. Eu sou experiente demais, calejado demais, homem demais para beijar a boca de uma prostituta. Ela me chama de todos os nomes que o script manda. Safado, cachorro, vagabundo, gostoso, paizinho e daí pra baixo. Meu pau luta para permanecer duro, diante de tanta merda. Mas eu sou insistente, inabalável, cabeça-dura. Foi assim que cheguei tão longe, para o bem ou para o mal.

 

E agora eu precisava endurecer.

 

Me aperta contra ela e me faz doer. As unhas mal pintadas de vermelho arranham meu couro grosso e eu bufo como o animal que sou. Enfio o dedo dentro dela com as unhas sem cortar e me faço mexer lá dentro. Eu não sei bem o que faço, eu apenas faço. Considerando o fato de que eu paguei pela companhia de Kelly, creio eu que seja uma espécie de “patrão” para ela naqueles próximos quarenta minutos. Logo, eu não tenho a mínima obrigação de saber o que estou fazendo. Eu só preciso foder tudo e causar um monte de dor para um monte de gente e garantir que algumas famílias felizes sejam destruídas durante o processo do que quer que eu esteja fazendo. Com grandes siriricas vêm grandes responsabilidades. Ah, caralho. Enfim, Kelly finge que aquilo está bom, diz que não é todo cliente que ela deixa fazer isso, mas que eu pareço limpinho, então tudo bem. Aperto suas tetas de silicone. Elas ficam brancas com o toque nada delicado dos meus dedos e depois ficam vermelhas novamente. Sangue corre por aquele corpo sem vida.

 

Mas apesar dos meus esforços, nada de ficar molhada. Porra, eu nem exijo prazer ou algo do tipo. Eu não ligo para essas coisas nessas noites. Eu só quero conseguir enfiar sem rasgar a camisinha e, consequentemente, a minha rola. Tô sem saco pras suas merdas, Kelly. Pego o lubrificante em cima da mesinha, lambuzo minhas mãos e esfrego o meio das suas pernas com pressa. Meu pau está duro. Por enquanto. Do jeito que as coisas estão, acredito que eu consiga uns bons cinco minutos de paudurecência e outros sete ou oito minutos de meia-bomba. E se eu não conseguir terminar antes disso, é PCC (punheta, cama e choro). Coloco a camisinha com um pouco de esforço, vergonha e medo e já vou subindo em cima. Encaixo com a ajuda da mão e entro firme. O silêncio de Kelly diante da primeira estocada me faz pensar que não, eu não vou conseguir nem cinco minutos. Ela percebe e começa a soltar uns “ai”, uns “ui” e uns “oh” de vez em quando. Boa menina. Vai ganhar mais dez reais de gorjeta, pelo esforço e carinho com meu ego.

 

Alguns poucos minutos se passam e minha previsão, de fato, acontece. Eu começo a amolecer ainda dentro dela. Ela ainda sugere que mudemos de posição, fica de quatro com um cu bonito e depilado para cima. Me pega na mão e me coloca pra dentro. Seria lindo, se não fosse horrível. O corpo mole do meu pau se dobra com cada estocada. Mas ainda assim eu funciono, lutando contra o tempo e contra o vazio no meu peito. Percebo, então, que ela segura meu pau enquanto coloco dentro dela, como numa punheta frustrada que não leva a porra nenhuma.

 

— O que você tá fazendo, Kelly?

— Segurando seu pau lindo, lindo.

— Que porra é essa? Solta meu pau. Pra que isso?

— Eu tô segurando sua camisinha pra ela não sair. E o seu pau também. Tá tudo frouxo.

— Para. Deixa que eu cuido disso.

— Da minha boceta cuido eu, meu amor.

 

E então eu percebo que estava no meio de uma DR com uma prostituta sendo comida por um pau mole. Tudo errado. Eu só queria escrever. Eu não queria tudo isso. É muita merda para uma noite só, muita angústia para uma vida só. Enfim. Tal conclusão me faz amolecer de vez. Tiro de dentro dela, sem desculpas e me largo naquela cama nojenta. Uma olhada no meu relógio. Ainda temos uns bons trinta minutos. Trinta. Minutos. Isso é muito tempo para passar conversando com uma pessoa com a qual temos intimidade. Imagine então com uma prostituta que tem seus próprios métodos infalíveis antibrochadas e que cuida da sua própria boceta? Que inferno. Fico em silêncio e espero ela tomar a atitude. Eu nunca fui de tomar iniciativa e não é ali, no fundo do poço, que vou começar a mudar isso. Daqui para cima é só subida, é a puta que pariu. Eu nunca disse que quis ir para o céu deixar a barba crescer e beijar os pés de Jesus Cristo. Eu nunca disse que prestava.

 

— Chega, meu gostoso?

— Chega, Kelly. Já deu. Não tô num dia bom.

— Tudo bem. Isso sempre acontece. É normal. Não é nenhum tabu, meu chefinho.

— Kelly, não precisa me consolar. Eu não ligo. Uma brochada não é nada além de um pau mole e uma falta de vontade do caralho. Eu não quero aumentar as coisas, eu não quero fazer disso um drama ou escrever uma história sobre essa noite. Eu só quero ficar aqui, quieto. A gente ainda tem trinta minutos.

— E o que você quer fazer nesses trinta minutos?

— Sei lá. A gente pode conversar. Me fala sobre sua vida lá fora.

— Ah, eu não tenho muito o que falar sobre isso. Eu não gosto de falar disso.

— Por que não? De onde você é?

— Rio Grande do Sul.

— Tem família?

— Tenho família lá. Mas eu nunca fui amada.

— E não tem ninguém que te ama aqui?

— Eu tenho um namorado. Ele é DJ. Discoteca no Inferno, aqui na esquina ― caralho!, e eu aqui pensando que não dá para ficar pior que eu.

— Um namorado? Sério? Caralho. Eu não conseguiria viver com uma namorada que faz o que você faz.

— É difícil, nem sempre é fácil. Às vezes os pratos voam e eu choro escondida antes de dormir. Ele usa bastante droga. Pensando bem, na maioria das vezes é difícil. Uma merda mesmo. Mas a gente segue em frente. Eu preciso seguir em frente.

— Pra quê? Por quem? Da onde vem essa obrigação de seguir em frente? Qual o problema de não fazer nada e deixar a inércia te levar pra nadar num monte de merda? Eu tô nessas faz tempo e ainda tô vivo. E com saúde, se cê quer saber.

— Que bom pra você. Mas eu não acho isso uma boa, seu cachorrão. Vê só: até pouco tempo, eu vendia sapatos no Shopping Cinco. Ganhava pouco. Mal dava pras contas.

— E hoje você tá aqui.

— E hoje eu estou aqui. Mas você sabe o quanto eu ganho?

— Sei lá. E prefiro não saber. A noite já tá muito ruim pra mim sem essa informação.

— Então, tá. Mas pelo menos você entende onde eu quero chegar, certo? Eu tenho uma bolsa da PRADA, porra.

— Tá bom, meu bem. Tá bom. Só me deixa aqui quietinho.

— Fica assim, não, gostosão. Seu pau é bem grande.

 

A primeira vez que pensei ter um pau pequeno foi quando uma prostituta disse que ele era grande. E o pior de tudo isso é que nem faz tanto tempo assim. E por falar em tempo, ele passou rápido depois dessa conversa estranha. Três batidas na porta indicavam o fim do programa e, com um pouco de sorte, o fim daquela noite. Um beijinho na bochecha, um carinho nos meus cabelos, uma carícia na barba e ela me puxa pela mão porta para fora do quarto. Paramos os dois numa janelinha, no fim do corredor. Ela entrega um nécessaire com um monte de cremes e uns papelotes de pó para a velha gorda do outro lado do vidro, que me dá um confere. Pura formalidade do programa. Só para saber que os dois que entraram saíram vivos, inteiros e sem marcas. É a vida que segue. É a merda que rola. Ela desce as escadas na frente e eu vou atrás. Meu pau fica duro com a sua bunda balançando escada abaixo. Porra. Vá entender. Eu formulo alguma analogia envolvendo as palavras “ironia” e “minha rola dura dentro da cueca”. Sei lá. Vai que dá um conto, um título que seja. Um pau duro que não tem mais tempo de acontecer após uma brochada não pode ser desperdiçado. É a minha forma de lidar com as coisas. Enfim, desço.

 

E agora eu precisava voltar para casa.

 

No andar de baixo, as coisas continuam como tal. Copos de Campari e cerveja voando para todos os cantos. Sento ali e fico um pouco, tentando formular alguma história. Um corvo preto pousa no meu ombro e me sugere tentar de novo, insistir no erro. Mas eu não o escuto. Como diria uma puta que um dia eu conheci: é preciso seguir em frente. “Um dia”, porque uma noite, dentro de um puteiro, já é tempo demais. No caminho em direção à saída, deixo os tais dez reais para a Kelly, que já está sentada no colo de um negão com o pau maior e mais duro que o meu. Eu botei o taxímetro da moça para girar. E ela não tem a intenção de parar tão cedo.

 

Tô ruim pra dirigir. Deixo meu carro ali. Subo num táxi, cujo taxista fica perguntando o que eu acho da música que toca no rádio. É um som eletrônico de péssima qualidade, com uma produção lamentável e extremamente caseira. As batidas se repetem ao longo da rua e os meus ouvidos só querem paz. Mas a paz nunca vem. Ela nunca vem. Eu sou sincero e digo o quanto aquilo é ruim. Não economizo nos detalhes. Descarrego um pouco da minha frustração em cima das minhas críticas, quando na verdade eu não dou a mínima. Ao fim da corrida, enquanto conto o resto do meu dinheiro, ele me pergunta se eu acho que ele deveria insistir na carreira. A música era dele. Ele era DJ. Eu digo que sim. Porque sonhos se tornam realidade, no fim das contas. Não? Eu minto. Ele sorri e me oferece pó. Eu recuso e subo para o meu apartamento.

 

Viro a chave, abro a porta, entro, me jogo no sofá, penso um pouco, abro um pacote de salgadinho, mais uma cerveja, bebo, gole profundo, chacoalho a lata, dou risada, coço o olho, dou risada, levo a mão ao rosto, coço a cabeça, coço a cabeça, coço a cabeça, dou mais um gole, amasso a lata, dou risada, levo a mão ao rosto. Seguro o choro uma última vez. Sento diante do computador e começo a escrever qualquer coisa. E enquanto as letras e palavras vão saindo, eu percebo que passei o dia e a noite e a minha vida inteira fazendo aquilo que eu precisava. E me esqueci do que eu realmente queria fazer. Apago tudo o que escrevi até ali e digito uma única palavra numa folha em branco. U-R-G-I-R. Era tudo que eu precisava.

 

FIM


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Ilustração: Emmanuele Calisto

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