Urgir ― parte I

 

 

 

Sentado, em casa. Inquieto com a minha quietude. Gastando tempo e pensando em tudo o que eu já deixei passar sentado em casa gastando tempo. Aí o meu telefone toca. Era meu editor, um cara antiquado, que ainda ligava, em vez de mandar mensagens. Gordo e careca e gordo de novo. O de sempre: pedindo texto, me cobrando do prazo que eu já nem lembro mais. Eu respondia com “aham” e “uhum” e “tá” e todas as formas de não demonstrar o mínimo interesse por alguém. Este sou eu, vivendo a vida de um homem ordinário e desinteressante e absolutamente comum e temente a Cristo. E quando o mundo faz zigue, eu faço zague. Ah, caralho.

 

— Alô.

— Fala, Vito.

— Fala. Que que manda?

— O problema não é o que eu mando, Vito. É você que não me manda nada. NADA. Eu não consigo fazer dinheiro com você, cara. Sabe por quê? Porque você não me dá NADA pra vender.

— Seja mais objetivo. Eu sou um homem muito atarefado.

— Me dá QUALQUER coisa. Um livro, conto, uma sinopse, uma dedicatória, um pedaço de papel cagado, que seja. Mas me entrega alguma folha com algum conteúdo nessa merda.

— Me liga semana que vem que eu te arranjo alguma coisa.

— É bom que você me arranje DINHEIRO, seu moleque. Escritorzinho de merda.

 

E então tututututu. Caralho. Gastei uns minutos me lamentando comigo mesmo, sentindo aquela autopiedade gostosa, que faz bem pra alma. Pensando e punhetando. Por que eu não consigo mais escrever? Por que a minha musa inspiradora foi embora? Ó, por que a página em branco insiste em perseverar, apesar dos meus esforços e investidas? Mas por que diabos eu escolhi ser escritor? E, enfim, toda essa putaria dos escribinhas do dia de hoje que, assim como eu, lambem a bunda e o chão de Bukowski e Fante e sonham em se matar aos sessenta e poucos para serem lembrados para sempre como Hemingway (que, por sinal, eu li muito pouco, mesmo agindo como se fosse um especialista no assunto). Palhaçada. Grande merda. Eu e toda a minha geração sabemos que isso, o suicídio aos sessenta e poucos, jamais há de acontecer. Falta coragem, colhões e problemas que um terapeuta caro e pago com meu próprio dinheiro não consiga resolver. O mundo está fodido e a culpa é toda minha e sua e deles e dela. Dela, principalmente.

 

E então eu precisava escrever.

 

Mas, voltando aos meus questionamentos: como escrever sem vida? Eu não saía do quarto havia um tempo. Eu sempre pedia comida em casa e às vezes eu pagava e às vezes não. E todos que precisavam da minha parca atenção e carinho nesse meio-tempo vinham até a mim. E olha eu aqui de novo acabando com o balanço e o equilíbrio do mundo, uma relação humana por vez. Enfim, o problema é que eu não tinha sobre o que escrever. Eu já passei tempo demais escrevendo sobre olhar para a parede, escrevendo sobre sofrer por elas, escrevendo sobre as minhas próprias ideias criadas sem embasamento em nada válido, escrevendo sobre meu próprio pau grande (acima de tudo sobre meu próprio pau grande), sobre aqueles dias loucos, sobre meu armário despedaçado e sobre qualquer outra coisa extremamente limitada ao meu pouco território geográfico e mental. E ninguém mais dava a mínima para essas merdas. E quando eu digo alguém, eu me refiro a mim mesmo, uma vez que eu estou CAGANDO para o que você pensa ou sente enquanto me lê. Eu já disse e declarei em inúmeras coletivas de imprensa que tive comigo mesmo: escrevo para mim e para não enlouquecer. Acontece que eu sou bom nisso e vocês acabam gostando de mim. Meu Deus, meu ego.

 

E então eu precisava beber.

 

Beber nunca me deixou na mão. Uma cerveja, um uísque, um vinho qualquer, um champanhe pra impressionar alguém. Sempre que bebi, algo de bom ou ruim aconteceu. Mas o mundo sempre ganhou um outro aspecto e o céu desceu e tocou o chão e o asfalto amoleceu e eu acordei com um cachorro trepado na minha perna, me chamando de “minha donzela”. Mas não importa. Porque sempre algo acontecia. E então eu voltava pra casa e botava um Johnny Cash pra tocar ou algo que tocasse meu coração com mais intensidade e eu sentava diante da máquina e batia com os dedos até ter alguma coisa e me sentir vazio e aliviado novamente. Algumas vezes eu também chorava durante o processo. E outras tantas eu batia uma com a mão esquerda enquanto digitava com a direita. Fazer o quê? Arte me deixa de pau duro. Ou será que deixava? Tomei um banho, vesti uma roupa, passei um pente na barba e fui pro bar de costume.

 

Não perca amanhã a segunda parte desta história. Até já.

 

Ilustração: Emmanuele Calisto

 

Um comentário para “Urgir ― parte I”

  1. Jorge

    Adorei a narrativa! É como pedir um kilo de Victor pra viagem enrolado num papel jornal. E ainda dá pra semana toda!

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