Urgir ― parte II

 

 

Sentei no tal bar de costume e fui pedindo minhas garrafas no meu ritmo. Observando tudo ao meu redor. Entortando o pescoço o máximo que conseguia enquanto lindas mulheres desfilavam pela calçada. E primeiro eu me imaginava comendo-as das formas mais depravadas e doentes possíveis, mas então o meu outro lado (o lado sobre o qual eu não escrevo e não vendo) falava mais alto e logo eu me imaginava casado e com filhos e, por Deus, fazendo daquelas mulheres as mais felizes do mundo inteiro. Casa com quintal e um cachorro chamado Fifi. Uma criança gordinha com a boca suja de chocolate me dando um soco no saco e falando: “ACORDA, SEU ROMÂNTICO DE MERDA!”. Elas sobem nos ônibus e nos carros ou viram a esquina e eu volto à realidade.

 

De vez em quando, o garçom, que tinha o mesmo nome que eu, vinha por perto e batíamos um papo. Ele gostava de mim, me tratava bem e tinha certo respeito pelo tanto de bebida que eu aguentava antes de começar a me lamentar pelas mulheres perdidas e por aquelas tantas que fizeram com que eu me arrastasse pelo asfalto em busca de um alimento. Pra alma. Também, pudera, o homem conheceu boa parte das minhas mulheres, que sempre foram tratadas com os melhores petiscos de boteco e uma bela de uma chupada gelada de cerveja ao chegar em casa.

 

Vito, o garçom, era gente boa e parecia me entender, acima de tudo. Começou a contar uma história engraçada de um cara que foi pra lá dia desses com a namorada. A menina era gorda, cansada, com os cabelos bagunçados, e ele também, o que explicava muita coisa. Enfim. Em certo ponto a gorda, por algum motivo que eu já não lembro bem, começou a chorar e falar, “MAS COMO EU VOU FAZER ISSO?”, e o gordo só respondia, “RESOLVA, RESOLVA, RESOLVA, RESOLVA!”, pro bar inteiro escutar. E a gorda a chorar e o gordo a gritar. E ninguém resolvia porra nenhuma.

 

— E então? O que o gordo fez?

— O gordo? Nada. Pagou a conta pra ela, deu um beijo na testa, disse que a amava e foram embora num táxi.

— Ai, meu bom caralho. Que tipo de homem é esse? Ficou lá, gritando a plenos pulmões, mandando a pobre coitada resolver as merdas dela e no final das contas resolveu tudo.

— Pois é.

— Os homens estão cada vez mais fracos e patéticos, Vito. Eles latem, marcam o território, fazem como se fossem morder. Mas, no fim das contas, abrem as pernas pra elas, como verdadeiras cachorrinhas.

— Não sei. Acho que você tá exagerando um pouco, pegando muito pesado com a gente.

— Ué, me diz você, então: qual o mal dos homens de hoje em dia?

— Eu acho que eles, simplesmente, se apaixonam.

 

Chamaram o Vito, o garçom, e ele foi embora. Vito fizera como todas as mulheres da minha vida: tocou meu coração e depois foi embora. Belas palavras ditas por um homem simples valem mais que belas palavras ditas por um homem complicado e perdido, como eu. Ou seja, pare esta leitura e dirija-se ao boteco ou esquina imunda mais próxima e sente-se ao lado daquele cara que parece ter sido esquecido pela humanidade.

 

Um grupo de meninas mais novas chegou à mesa ao lado. Todas usavam uma camiseta cortada, que deixava o sutiã aparecendo ao lado. E amarravam seus cabelos, um de cada cor, pra cima, e tinham uma pequena bolsa a tiracolo e vestiam uma calça apertada. Eu juro que quase enlouqueci. Minha(s) cabeça(s) girava(m) e doía(m) sem parar. Comecei a beber mais rápido e em goles maiores, tamanho meu nervosismo diante da situação. E quando eu digo “situação” eu quero dizer “aquele bando de boceta gostosa pra caralho”.

 

Porra.

 

E como todo grupo de meninas novas e gostosas, elas falavam merda sem parar. E falavam alto. Queriam que o bar inteiro escutasse sobre o cara que uma delas chupou no banheiro de uma festa da faculdade. Ou sobre como o outro cara tem um pau maior que o do outro cara, que em compensação sabe chupar boceta e mordiscar bico de peito melhor que aquele outro cara. Tudo o que se ouvia por aqueles cantos era uma descrição minuciosa de todos os caras que elas já foderam (em todos os sentidos da palavra) e chuparam (também, em todos os sentidos da palavra). Um ou dois aventureiros sem muito amor-próprio se aproximaram da mesa, tentando descolar uma foda fácil ou algo perto de tudo aquilo que elas diziam que faziam. Só para serem destruídos em poucas palavras e ainda menos olhares por aquelas donzelas tão maldosas e tão gostosas e tão cheirosas e… Isso é Victoria’s Secret? Ah, não? Tudo bem. Prazer em conhecê-las.

 

Volta pra sua mesa, Vito. Toma sua cerveja, Vito. Pede mais uma cerveja, Vito. Olha pra baixo, Vito. Segura a onda, Vito. Conta seu dinheiro, Vito. Segura a onda, Vito. Não, Vito. O.k., Vito. Chora lembrando dela, Vito. Bate uma punheta e esquece, Vito. Esquece e bate uma punheta, Vito. Não esquece de bater uma punheta, Vito. Bate uma punheta pra esquecer, Vito.

 

E agora eu precisava de uma mulher.

 

O terceiro capítulo de “Urgir”, ah, só amanhã… Sabe para onde Vito irá? Arrisca um palpite?

 

Clique aqui e leia o primeiro capítulo da série.

 

Ilustração: Emmanuele Calisto

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