Urgir ― parte III

 

 

Tomei mais umas pra tomar coragem antes de sair por aí. Meus pés tropeçaram um no outro embaixo da mesa e vai ver eu estava pronto. Acertei a conta, deixei uma gorjeta pro Vito e mandei lembranças pra sua família. Ele me agradeceu de longe, fez sinal negativo com a cabeça e depois caiu na risada sozinho. Vito me conhecia na solidão. Especialmente na solidão ao lado de uma mulher. E Vito sabia qual era meu destino em noites solitárias. Entrei no carro e espirrei dois jatos de perfume no pau e no cu, respectivamente. Subi os vidros, liguei o ar-condicionado e uma música qualquer no rádio. O relógio apontava algo depois das duas. Um horário bom pra chegar ao meu puteiro de costume, naquela rua de costume. Vocês sabem do que eu tô falando. Às duas da manhã, o lugar ainda não estava nem cheio demais, ao ponto de você se sentir incomodado, nem vazio demais, ao ponto de você conseguir se olhar no espelho e também se sentir incomodado.

 

Estacionei meu carro, arrumei minhas calças, me limpei dos meus pudores e amores, recordei meus fracassos um a um, entreguei um dinheiro pro segurança e fui entrando. Ele me chamou pelo nome e eu quis voltar pra casa. Quando o segurança do puteiro sabe o seu nome, é porque a sua vida não está indo por um bom caminho, você não está se saindo como um bom homem. Mas, mesmo assim, entrei. Necessidades, antes. Prazer, depois.

 

Espelhos por todos os cantos. Mulheres por todos os cantos. Bebida por todos os cantos. Um cara tropeçou bem na minha frente e derrubou cerveja no meu tênis. Saiu dando risada, estapeando a bunda de uma loira vestindo só calcinha vermelha. Homem de bem, feliz, pagador e prestador de contas. Fui passando por todas aquelas pessoas, direto para o fundo da casa. Os olhares, todos vazios, apontados para o nada, perdidos por aí. Delas e deles. O cheiro era de camisinha e KY. Uns senhores na faixa dos seus cinquenta, sentados num canto, só observando. Um deles carregava um terço nas mãos. Tristeza é isso. Tristeza é um homem de cinquenta e tantos anos, brocha, vestindo um tênis Rainha esgarçado e uma camisa vermelha, sentado no canto de um puteiro com um copo de Campari na mão esquerda e um terço na mão direita. Tristeza é isso. O resto é um passeio no jardim. E eu aqui me queixando às rosas.

 

A questão é que, sentado no fundo do puteiro, eu tenho uma visão melhor e mais estratégica de toda aquela merda. Eu consigo escolher meu alvo rápido, sem nenhum apego e sem nenhuma necessidade além-pica. E o mais importante: eu posso sair dali o quanto antes. Pedi uma vodka com alguma coisa. Virei num copo de plástico e fui bebericando. Os olhos pra lá e pra cá. Duas moedas perdidas, rolando pela calçada, perseguidas por uma criança faminta que as observa cair no bueiro com lágrimas nos olhos. Passo por uma ruiva, que me lembra dela. Uma morena, que me lembra daquela. Uma japonesa, que me lembra da outra. As lembranças se confundem com minha necessidade e meu pau endurece um pouco com cada uma delas. Desfilando pelos corredores da casa, com seus drinks na mão, sentando no colo dos homens que, assim como eu, vivem um pouco toda noite e morrem um pouco toda manhã.

 

E agora eu precisava me decidir.

 

Encontrei uma loira que não me lembrou ninguém, além das madeixas amarelas de Cristo, mas com esse eu me entendo mais tarde. Ela tinha peitos grandes. Não, enormes. Apenas, grandes. E claramente artificiais. Vestia um sutiã preto. A bunda era boa. Bem redonda e dura. Barriga seca e a tatuagem de uma rosa na costela. Ia bastar. Pensando bem, era bem mais do que eu precisava, levando em conta o meu histórico com prostitutas e o enorme NADA que eu sentia me consumir naquela noite de necessidades. Chamei-a pra perto e tivemos uma conversa bem objetiva.

 

— Oi, boa-noite, tudo bom? Qual seu nome?

— Kelly. E o seu?

— Vicente. Você já saiu com alguém hoje?

— Ainda não, Vicente. Tá a fim de botar meu taxímetro pra girar?

— Pode ser. Você é linda, Kelly.

— Obrigada.

— Então, quanto é?

— Duzentos e cinquenta.

— Duzentos e cinquenta mais cinquenta do quarto?

— Mais cinquenta do quarto.

— Quarenta minutos?

— Quarenta minutos.

— E se eu gozar antes dos quarenta?

— Aí, acabou, gato. Bye, bye. Boa-noite.

— Eu acho que você é tudo o que eu preciso, Kelly.

— Que bom, Vicente. E do que você precisa?

— Eu já não sei mais.

 

Amanhã, tchan, tchan, tchan, a última parte dessa aventura noite louca adentro. Fique aí.

 

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Ilustração: Emmanuele Calisto

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