Vila São João

 

Eu cresci numa vila. Não tinha asfalto e só depois de muito tempo chegou poste com luz. Até então éramos proibidos de sair de casa depois das 18h. Um bando de pirralhos metidos a valentes. A noite lá era um breu danado. Eu sempre dava um jeito de fugir pra tentar encarar aquela escuridão, mas óbvio que quando voltava tomava uma surra de lascar. A esta altura do campeonato eu já tava pouco me fodendo. Nem sentia mais a dor das fiveladas que eu levava. A única merda é que eu ficava com as pernas toda marcadas e tinha que ir a semana inteira de calça pra escola. Sempre odiei calças compridas. Até hoje. Além de incomodar as bolas da gente, a bunda e as pernas não param de coçar. Parece sarna.

 

E não lembro também por que queria me meter a andar de noite naquelas ruas esburacadas e cheias de lama. Coisa de moleque idiota sem ter muito o que fazer. Tô ligado que moleques geralmente não têm mesmo muito o que fazer. O que é bom pra cacete. Não ter responsabilidade nenhuma.

 

Pra evitar que escapássemos constantemente, nossas mães nos aterrorizavam com histórias assombrosas sobre assassinos que cortavam a cabeça ou o pinto de crianças perdidas na vila à noite.

 

Atrás de casa era o pasto de uma enorme fazenda. E bem próximo à vila tinha algumas favelas. E a molecada sempre aparecia lá pra brincar ou bagunçar com a gente. Na maior parte das vezes era pra brigar. A situação financeira deles não era muito diferente das nossas. Eles moravam num amontoado de barracos de madeira e a gente num amontoado de barracos de tijolos e cimento cheio de vazamentos e também vestíamos os mesmos trapos velhos. Mas nossos pais gostavam de reforçar que eles vinham da favela. Devia fazer bem pros seus egos.

 

Eu adorava arrumar encrenca com eles. Eu tinha uns amigos que também adoravam se meter nestas encrencas comigo. Até os 8, 9 anos de idade eram simples encrencas de moleques. Briguinhas bestas e infantis. Depois disso as paradas passaram a ser resolvidas a tijoladas, pauladas, soco inglês e o que estivesse ao alcance da vista. Sempre tinha um que tomava mais no cu do que os outros. Eu tentava ganhar o respeito da vila e suas redondezas, mas… perdi a conta das vezes que cheguei com os olhos roxos em casa. Puta que pariu, isso era motivo pra uma nova surra e ter que usar as malditas calças a semana toda.

 

Numa época me juntei com uns moleques que curtiam entrar em supermercados e pegar pacotes de doces, enfiar na calça escondido e sair andando. Eu idiota quis ser igual. Não tinha muita noção. Achava bonito. Eles pareciam fodões fazendo aquilo e eu queria parecer também. Era bom pra cacete sentar depois numa calçada, abrir os pacotes e saborear todos aqueles doces que geralmente não tínhamos em casa.

 

Como nunca éramos pegos, íamos ficando cada vez mais seguros. E não satisfeitos de só levar os doces decidimos começar a aprontar dentro do mercado.

 

Tinha um grande que ficava bem no centro do bairro e que era o nosso favorito. A variedade de guloseimas dele era mais interessante.

 

Numa dessas presepadas, uma vez peguei uma garrafa de leite, que na época não tinha esses lacres, e lancei um desafio pros moleques, pra ver quem faria a coisa mais absurda. Cochichei no ouvido de um que fez uma cara de espanto, aguçando a curiosidade dos outros.

 

Fui até o banheiro, abri a garrafa e enfiei o pinto dentro. Não mijei, só meti o pinto cheio de sebo, deixei alguns longos segundos e fechei-a pra botar de volta na prateleira, torcendo pra algum almofadinha pegá-la e levar pra casa pra saborear o leite com um aroma especial.

 

A única merda é que a única prova de que fiz isso seria mostrar o pinto banhado a leite pros moleques. Caralho, eu ter que mostrar o pinto pros outros? Vá se foder. Não foi muito inteligente o que fiz.

 

Quando eu tava saindo do banheiro, matutando um jeito de provar isso eu vi os moleques sendo levados pelos braços por seguranças do mercado. Antes que me vissem, dei um jeito de sair de fininho. Certeza que os filhos da puta tavam doidos pra apontar o dedo na minha direção e dizer: “Foi ele”. Já tavam antes disso querendo me ferrar e tramando um jeito de não deixar eu me sentir o fodão. Eu fui mais esperto e corri feito um leopardo com a porra da garrafa na mão. Esqueci de abandoná-la. Devo ter corrido mais de um quilômetro sem parar. Sorte que ninguém viu, porque seria julgado por roubo e desacato à autoridade.

 

Olhei pra trás e nada. Parei sedento e ofegante debaixo duma árvore. Abri a porra do leite e virei um golão. Fechei e segui pra casa. Quando cheguei me dei conta da merda que tinha feito. Senti o gosto estranho que queria que os outros sentissem. No final do golão, achei apenas que tava cheio de nata, demorei, como sempre, pra me ligar.

 

Puto da vida entrei em casa. Não tinha ninguém. Meti o leite na geladeira e foda-se, pensei. Tinha tanta raiva das fiveladas, que na minha cabeça não estaria fazendo nada de mau me vingando um pouco. Era só um leite com um sabor especial.

 

Mas como ia justificar aquele leite se não tinha dinheiro pra nada? Do jeito que eram iam achar que roubei.

 

Devia faltar uns trinta minutos pra minha mãe chegar do trampo. Correndo tomei toda a porra do leite, porque me ensinaram que é pecado jogar comida fora. Depois dei um jeito de me livrar do pote. Em seguida vomitei tudo. Menos mal. Pelo menos não joguei fora, só não coube direito na minha barriga. Esta história passou batida lá em casa. Ninguém nunca suspeitou, eu acho. Confesso que fui bem perito em não deixar rastros nenhum.

 

Não sei até hoje o que aconteceu com os moleques. Fiquei mal no começo, pois imaginei que eles pudessem ter sido presos, ou torturados, ou até mesmo mortos. Sorte que em casa não tinha telefone. Vai que a mãe de um deles ligasse pra minha. Se ela soubesse de um troço desses, acho que nunca mais poderia voltar a usar bermudas. Sorte também que a única tevê, branco e preto, estava queimada há alguns anos. Assim pelo menos ninguém ali ficaria sabendo das notícias.

 

Meses depois sofri meu primeiro grave acidente, que me deixou uma semana internado e meio lelé da cuca. Não lembrava muitas coisas. Juro que fiquei encanado por um bom tempo com isso, achando que pudesse ter sido um castigo de Deus. Um dia conto isto mais detalhado. Eu despenquei com um trator num barranco de um sítio destruindo chiqueiros, galinheiros, até ele ser parado por uma árvore me arremessando desacordado, onde parei a um palmo de um rio. Por pouco não morri afogado. Lembro que acordei ensanguentado num carro no colo da minha mãe e ela chorava sem parar. Perguntei se ia morrer e tudo se escureceu. Quando acordei de novo, já estava limpo numa cama de hospital espetado por soro e minha mãe me observando de longe aos prantos.

 

O bom dessas coisas é que nos deixava bem próximos e eu podia ver o quanto minha mãe era carinhosa e preocupada comigo. Foi aí que aprendi a gostar de mamão. Era só o que serviam nos hospitais. Minhas internações depois disso por acidentes foram frequentes. Minha mãe passou a bater menos em mim e eu a amá-la mais. Nunca mais peguei nada no supermercado nem meti o pinto em potes de leite nenhum.

 

*Paulinho Faria é escritor, ator, dramaturgo e diretor teatral. Escreveu o livro de contos “O Pankada” (veja mais aqui).

2 comentários para “Vila São João”

  1. Vinicius Valle

    Puta texto! Legal demais. Parabéns!

  2. Leandro Lima

    !!!!
    UOUUUUU Parabénsss

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