Xingamentos do Brasil real

Os tradicionais xingamentos do Brasil, aqueles responsáveis por um efeito catártico poderoso, de lavar a alma nacional por inteiro, aqueles utilíssimos impropérios de gracejar a mãe do outro #sóquenão, de convidar solerte sujeito a ir pra Katmandu #sóquenão, andam perdendo espaço para outros, de igual ou superior intensidade.

Ouça só a voz das ruas:

― Você não passa de um Eduardo Cunha! Um Cunha! Um Cunha!

― E você não é nada mais que um Renan! Calheiros, claro! Renan Calheiros! Renan Calheiros!

― Ah, covarde! covarde! Então, tome: seu Michel Temer! Pior, pior: sua carta de Temer, seu verba volant, scripta manent! Pior, pior ainda: seu Edison Lobão! Lobão mau! Lobão mau!

― Edison Lobão é golpe baixo! É antiético! – e o homem deu meia-volta, visivelmente ofendido, depois de ainda dizer: ― Quando me vir passar outra vez por aqui, não me chame, não me convide para a tertúlia, seu José Sarney! – o outro homem ficou ali, prostrado, atônito, sem mais que dizer.

Outra rodinha mais à frente parecia dominada por sentimento cívico de outra coloração, mas de mesmo furor e veemência:

― Eu, Anastasia!? E você, hem, seu Aécio? Seu Aécio Neves! Seu Aécio Neves!

― Ah, sujeito vil, seu vilão! Sempre soube que você não era nada além de um José Serra, de um Geraldo Alckmin, que era mesmo um sujeito muito efe-agá-cê! Como só agora percebo que você é tão efe-agá-cê?!

O homem ruborizou, intumesceram-se suas faces, os olhos pareciam querer saltar, de tão arregalados. Por fim, falou:

― Não esperava ofensa tão ignóbil de sua pessoa, seu José Dirceu!

― Ah, apelando, não é? Depois, não reclame: seu Delúbio! Delúbio Soares! Seu João Vaccari Neto! Seu Delcídio! Seu Delcídio do Amaral!

Houve então troca de muitos outros insultos, num crescendo de indignação: Seu Lula! Seu Lula! Sua Dilma! Sua Dilma! Precisou até gente do STF intervir, porque a coisa degringolou de vez, quando mergulharam numa espiral histórica, em retrospectiva, Seu Golbery do Couto e Silva! Seu Emílio Garrastazu! Seu Filinto Müller!, chegando até a Barrabás.

Um outro grupo, numa esquina de muito movimento, vociferava utilizando outra qualidade de invectivas uns contra os outros, parecendo obedecer a um sistema temático rigoroso e bem contemporâneo:

― Ah, sujeito ordinário, tu já era zika, mesmo antes do zika! Sujeito que já nasceu zikado! Sua chikungunya! Sua proliferação descontrolada de Aedes aegypti! Sua crise hídrica! Seu volume morto!

― Ah, homem, como pude um dia confiar em você?! Como logo não vi que se tratava de um projeto de lei para a redução da maioridade penal e a liberação crescente da venda de armas?! Um projeto para alterar a demarcação de terras indígenas?! Uma iniciativa para a criminalização ainda mais acentuada do aborto?!

E foram daí, passando em memória famigerados projetos de leis e leis e chegando aos atos institucionais de número 1, 2, 3, 4… No 5 a turma do deixa-disso precisou intervir. AI-5 é a sua mãe, foi a última frase audível daquele debate.

Mas uma outra aglomeração, no meio de rua interditada à passagem dos autos, onde crianças brincavam de bola e pais e filhos andavam de bici, reverberava outra conversa, amistosa, de nariz vermelho colocado como pingo sobre os is:

― Você sempre foi um palhaço, não é? Desde criancinha era um palhaço de marca maior.

― Poxa, obrigado por me ver com olhos tão generosos! E você, hem? Se esqueceu dessa tua calva protuberante, desses teus olhos estrábicos, dessa tua boca torta, feita de dentes tortos e lábios leporinos?

― Veja você o tamanho da tua orelha, perfeito abano, não precisa nem de ar-condicionado na tua casa, é só balançar tuas orelhas.

E gargalharam muito, se abraçando.

― Você é mesmo um Arrelia! Na verdade, um Piolin!

― Generoso, generoso você! Seu Carequinha! Seu Atchim e Espirro!

― Obrigado, obrigado! Seu Torresmo! Seu Coxinha!

― Não é tanto, não é tanto, seu Pimentinha!

― Ah, que fofo, que Picolino…

Ficaram assim por longos e longos minutos, depois trocaram falsas bordoadas, claque, cascata; claque, cascata; claque, cascata; e deram cambalhotas e espirraram água da flor da lapela. E riram, e caíram, e rolaram.

O palhaço salva esse tão xingado (e tão triste) Brasil. E patati e patatá.

 

 

Foto: 19.nov.2013 – Marcello Casal Jr./Agência Brasil

 

Um comentário para “Xingamentos do Brasil real”

  1. Ingrid Juliana Francini

    Ingrid Juliana Francini

    Gostei! Fora Cunha! Escreva mais, pois seus textos são ótimos.

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