Vejo, no obituário desta terça-feira, 8 de dezembro, no Estadão, a morte de Manoel Camillo de Oliveira Penna Filho, de quem fui colega na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e companheiro de trabalho na Norton Publicidade, do Geraldão Alonso, que chamava todos os homens da agência de “pistoletas”, mas essa é outra história.
Camillo já era, naquele início dos anos sessenta, um respeitado profissional de atendimento e eu, um recém-saído da condição de redator-foca em busca de voos mais altos em uma agência mais criativa e menos careta do que a Norton daqueles tempos.
Havia, na agência do Geraldão, três grandes clientes e estes, por sua vez, tinham sua criação dividida entre os três redatores: a divisão de chocolates da Nestlé, com o Eduardo Riedel e o contato feito pelo Carlito Maia; a General Electric, com o Hugo Maia na criação e o Pierre Milos e o Luiz Celso de Piratininga no contato com o cliente; e a grande loja de varejo Serva Ribeiro, comigo na criação e o Camillo no atendimento. Havia ainda o Zé do Couto, na chefia geral dos redatores, que, ainda, trabalhavam num andar e os diretores de arte noutro andar, como era habitual na época, mas essa também é outra história.
Detalhe curioso é que o gerente de propaganda da Serva Ribeiro, o Reinaldo Zangrandi, também tinha sido nosso colega na ESPM, o que facilitava e muito o nosso trabalho de aprovação das peças publicitárias do cliente, que chegou a publicar alguns anúncios fora da normalidade varejeira daquele início dos anos sessenta.
Um dia, voltando da Serva Ribeiro para a Norton, o Camillo me perguntou se eu toparia sair da Norton com ele para abrir uma agência. Se ainda hoje estou sempre disposto a encarar novidades, imagine então com apenas vinte anos no lombo e louco para criar coisas novas. “Claro”, respondi. E, aí, o Camillo contou a história do general francês.
Não me lembro mais como o Camillo ficou conhecendo o general francês, cujo nome sumiu de minha memória para todo o sempre, mas esse era apenas um detalhe irrelevante para a compreensão da história.
O Camillo conheceu esse general francês e por ele foi convidado a montar uma agência de propaganda, apresentando ao general uma planilha de custos e a recomendação de que seria preciso ter clientes que faturassem um X por ano para empatar os custos e, a partir daí, tudo mais que entrasse seria lucro.
Só pra ter uma ideia, o Camillo havia caprichado nos custos, tanto assim que eu, que naquela altura ganhava 16 mil qualquer coisa (como sempre, não dá pra saber qual era a moeda brasileira da época), estava na relação com um salário de 50 mil e assim por diante. E o general havia aprovado o plano do Camillo, sem nenhuma restrição, acrescentando a informação de que ele tinha um relacionamento capaz de arranjar clientes e garantir com folgas as necessidades mínimas para a sobrevivência da agência.
Então o Camillo marcou uma reunião com o general, para me apresentar como o diretor de criação da agência, no escritório que ele ocupava no prédio da avenida Ipiranga, esquina da Cásper Líbero, centro de São Paulo.
O escritório do general ocupava um andar inteiro daquele prédio imenso, com cerca de quinze ou vinte salas, mas além dele só estava no escritório uma secretária.
Havia uma agência de turismo ocupando uma ou mais salas, mas os folhetos estavam cobertos de poeira, o que era no mínimo estranho. E, o mais estranho de tudo, num tempo em que uma linha de telefone era mais rara em São Paulo do que petróleo, o general dispunha de umas quinze ou mais linhas ali, entregues às moscas, com um PABX militar da Segunda Guerra para ele poder atender todas elas em sua própria mesa.
Enfim, naquele andar imenso, a aparência das salas não utilizadas transmitia um ar sombrio, de abandono, de mistério meio de submundo, de certa ilegalidade de atividades.
Por falar em Segunda Guerra, havia na parede atrás da sua escrivaninha, em destaque, uma foto dele com o general De Gaulle, tirada durante a Guerra da Argélia, que ainda estava em pleno curso.
Era um contraste interessante, ele e o De Gaulle, que era um homenzarrão imenso, já que o nosso general era mais baixo do que o Camillo e mais ou menos da minha altura, aí pelo seu metro e setenta.
Durante a conversa conosco, o general falou de seus outros empreendimentos, entre os quais, uma gráfica que poderia competir em qualidade, aqui no Brasil, com a Thomas de La Rue, da França, que era quem imprimia o dinheiro brasileiro e de outros países na época, deixando no ar perguntas que nem eu nem o Camillo ousamos fazer.
Ao sairmos do prédio, o general se despediu de nós e entrou numa limusine preta, dirigida por um chofer oriental, e ficamos de ter um novo encontro para dar início ao nosso empreendimento.
Enfim, era uma empreitada pra dizer o mínimo estranha, de eventuais riscos, e nem eu nem o Camillo tivemos coragem de encarar o desafio. Combinamos fazer um silêncio digno de uma omertà siciliana a respeito do general francês e seus projetos – e cumprimos.
Só hoje, lendo sobre a morte do querido Camillo, quase cinquenta anos depois, é que vim a me lembrar desse episódio. Ave, Camillo! Mais cedo ou mais tarde a gente vai poder relembrar essa história aí nas alturas.
Como todos os que você escreve, esse seu texto sobre o Camilo, que
infelizmente não conheci e o general francês que também não conheci, esse
felizmente, está muito bom, gostoso de ler e lembrar de um tempo feliz que não
volta msis.
No fechamento V. fala em se encontrar, lá nas alturas com o
Camilo. Vai sim, pode apostar nisso.
Se eu for depois de você, vou ficar
aqui embaixo torcendo para vocês não encontrarem o general, que figura...
Certamente com o vasto conhecimento adquirido do universo, ele vai querer montar
um outro negócio mais rentável do que uma agência, talvez uma igreja.
Mas
continuem correndo do general meu amigo.
Um abraço
H.M.
que vc tem 1,70 (qua,qua,qua,qua!!!) E esse negócio de encontrar com o Camilo
la nas alturas tambem não consigo engolir.Prefiro acreditar no papi-noel meu
irmão. Abs do FON
uma agência, era um cara que se fazia passar por general e tinha uma sala cheia
de telefones, não é?
Pois ouvir falar que ele voltou à sua origem
norte-africana logo depois da queda da 4ª República e tentou como pode usar de
sua influência para ocupar o posto de goleiro no lugar de Camus, que havia já
se aposentado e rumado a Paris, França.
1,70m. Leia de novo, Fon, com a atenção de um belo escriba que você é:"o
nosso general era mais baixo do que o Camillo e mais ou menos da minha altura,
aí pelo seu metro e setenta".
Viu? By the way, minha altura é 1,69m, com
medição às suas ordens.
Sobre o Breno, o que eu fiquei sabendo foi que o
general voltou para a França para ocupar a vaga do Fontaine, que havia sido o
artilheiro da Copa de 58 na Suécia - mas não deu certo, sendo substituído por
Simone de Beauvoir no escrete gaulês, numa antecipação radical das conquistas
femininas.
Finalmente, mas não por último,o meu doce amigo Humberto Mendes, o
Bom Baiano, como sempre exala rosas e mel em suas intervenções fraternais.
Axé mermão!
maravilhosamente bem. É uma delícia ler, sempre.
Muitas saudades
Eliana A.
