Tem horas que um intervalo de quatro anos parece durar muito mais. No longínquo ano de 2006, duas coisas tão cotidianas hoje já estão extintas: mídia de rua em São Paulo e Ronaldinho Gaúcho na seleção.
Lembro muito bem de subir a Rebouças, avenida aqui pras bandas de onde moro, São Paulo, e reparar que, em praticamente todos os painéis e outdoors, a figura do jogador brilhava feito um colosso. Pneus, postos de gasolina, cartões de crédito. Ronaldinho driblava na frente, as marcas seguiam catando a glória atrás.
Propaganda não é trouxa. Só joga sementes em terreno fértil. Na chacoalhada que a Copa do Mundo faz no coração e no imaginário, os craques aparecem como os grandes heróis. E heróis são mitos que a humanidade está careca de conhecer e adorar desde que inventou a fala e, consequentemente, as histórias.
A imagem exagerada de Ronaldinho na Rebouças nada tem de diferente dos 12 trabalhos de Hércules ou da lenda de Guilherme Tell. Quer dizer, diferente é a mídia. Se há séculos estas histórias eram admiradas ao redor da fogueira e esculpidas em mármore, hoje estes mitos são fermentados em comerciais, anúncios, jornais e televisão.
Por outro lado, a propaganda também não corre atrás de bola perdida. Ronaldinho, hoje, está em baixa. Ídolos de futebol estão no meio do caminho entre os heróis para sempre e os descartáveis BBBs.
A propaganda, a mídia em geral, funciona como uma escadaria que os coloca no Olimpo. Na véspera da Copa, os principais craques do mundo aparecem agigantados, proporcionais à adoração que o planeta lhes devota, principalmente em peças publicitárias.
Agora, para permanecer lá, eles têm de responder com a bola no pé. Ninguém quer um mascarado na capa de uma revista ou de um jogo de videogame. Mais um para a lista de paradoxos: a propaganda, tão efêmera e mutante, ajuda a tornar imortais estes esportistas.
George Lucas diz que sua aula mais importante foi antropologia. Quem sou eu para discordar de alguém tão milionário. No caso da propaganda, mais do que se apropriar dessas figuras, ela joga ainda mais lenha na fogueira.
Porque, ao longo da história, o sentimento em relação a estes campeões não mudou, e nunca vai mudar. Torneios como a Copa sempre despertaram o boca a boca, uma excitação que transforma lances simples em façanhas divinas.
Mercadologicamente, a explicação por tamanha exposição dos ídolos é até óbvia: vamos deixar a nossa imagem associada à deles. Particularmente, o buraco é mais embaixo.
Um dos destaques do British Museum são painéis persas antiquíssimos, esculpidos em rocha, com cenas de caçadas de leão, o esporte preferido do rei. Daqui a dois mil anos, podem muito bem ser outdoors da febre da vez: Kaká. Mas só se ele voltar com o caneco.
